sábado, 13 de setembro de 2014

As Pedras de Elementra. Parte 2. Capítulo 14.



14. Escada imortal. Primeiro Degrau.


Parecíamos estar com a vantagem, mas como dizia um velho que eu encontrei durante meu tempo de estrada: "Se você pensar estar em vantagem, desconfie. Porque você vai levar um soco e cair de cara no chão da dura realidade". 
Ele era meio filósofo. Ou então extremamente biruta.
A questão é: tínhamos mais número, mas não sabíamos o nível atual de nossos oponentes. Richard estava completamente mudada, não era mais a mesma. E Snape não parecia estar como antes. Ele vestia um longo manto que cobria seu corpo inteiro, menos a cabeça. Sua cabeça estava raspada. Ele mais parecia um monge nesse momento e isso podia não ser um bom sinal.
Ao meu lado, haviam Annie, Stephie, Troian, Melody, Yousuke, Merith, Ingo, Gen, Misake e Yuuya. Devíamos ser o suficiente para acabar com só dois oponentes, certo? Mas parando pra pensar... Não faltava alguém?
Misake olhava através de mim como se pudesse enxergar algo além de mim. Eu posso dizer que isso me deixava meio desconfortável.

-Acabou o tempo. - Richard estalou os dedos.

O chão tremeu e um círculo apareceu por baixo de cada um de nós. Eles começaram a se locomover junto com as pedras que formavam o chão, formando um grande círculo ao redor de todos nós. 
Snape sibilou mais alto, fazendo meus ouvidos doerem. Mais sibilos foram ouvidos. Várias cobras cercavam o círculo, cobras de diversos tipos mas com uma coisa em comum. Eram todas venenosas.
Snape puxou as mangas do seu manto e revelou seus braços. Não havia braços, somente cobras enormes com suas cabeças localizadas aonde deveria ficar as mãos.

-Deve ser engraçado ver um rato indefeso passando na sua frente agora. - Misake zombou.

-Eu não zoaria se fossssse vocêsssss. - ele respondeu, agitando seus novos braços no ar.

Melody estava bem atenta ao círculo. 

-Seu plano é nos prender aqui para sermos atacados pelas cobras? Só isso? Francamente, a antiga Richard era mais inteligente. - Melody suspirou.

-Não existe antiga Richard. Agora só existe a nova Richard, a melhorada. Aquela que governará com punho de ferro! - ela fez um gesto enquanto falava, e como resposta a isso, o círculo começou a brilhar.

-Punho de ferro? Onde? Não estou vendo. Você vai amputar seu braço, vai? - Troian respondeu sarcasticamente. 

-Se eu fosse você, não brincaria comigo mocinha. - ela respondeu grossa.

-Mocinha? Se sabe que sou mais velha que você né? - Troian revirou os olhos.

-Pouco me importa sobre você. Tudo que eu preciso saber é que você não vai viver até o fim do dia. - Richard abriu um enorme sorriso.

O chão começou a tremer, e uma barreira, como se fosse uma cúpula, começou a se erguer ao nosso redor. As cobras começaram a se aproximar devagar.

-Meio patético... - Misake resmungou.

Ele tinha um lança-chamas em mãos.

-Tenho dó de queimar essas cobras... Se não vai mandar saírem daqui eu vou ser obrigado a isso. - Misake apontou o lança-chamas para as mais próximas.

Snape pareceu não gostar da ideia, julgando pela sua expressão facial. 

-Não se preocupe. - Richard o acalmou.

Ela levantou um pedaço de papel e o grudou na cúpula, que já havia nos prendido completamente, e depois o queimou com seu fogo negro. As cobras reagiram a isso. Começaram a crescer, cada vez mais e mais, até ficarem parecidos com Snape, exceto pela cabeça, que continuava sendo a de cobra. Agora elas tinham braços, também vivos, e um corpo que terminava com sua longa cauda.
Misake apertou alguns botões de sua arma, e o lança-chamas ficou maior, parecendo uma metralhadora.

-Ainda estou decepcionado com vocês... - ele murmurou.

Merith estava logo atrás dele, com uma expressão assustada. Ela com certeza não foi trazida para lá com a intenção de lutar. Ingo parecia entediado. Já Gen, estava preocupado, e ele segurava uma espada pequena com a lâmina curva. Acho que o nome desse tipo de arma seria cimitarra. 
As cobras começaram a sibilar sem parar e vieram em nossa direção aos montes. 
Ingo as acertou com sua alabarda fazendo movimentos leves e certeiros, sendo ajudado por Gen que estava ao seu lado.
Uma delas se aproximou de mim, cuspindo veneno no chão. Como resposta a ela, atirei uma flecha diretamente na sua cabeça. Essa tal de besta era mais fácil de usar do que o arco comum. 
Troian cortava as cobras pela região onde ficaria o pescoço de uma pessoa normal, usando uma adaga. Ela se movia muito rápido.
Yuuya estava lutando de uma maneira inusitada. Ele usava o cão infernal para acertar as cobras. O cão logo ficou cansado e ferido, Yuuya então o deixou ir. 
O número de cobras aumentava, minha única escolha era continuar lutando, alternando entre flechas e golpes corpo-a-corpo.

-É tão lindo ver eles tentando sobreviver... Em vão, é claro. - Richard comentou com Snape.

Annie e Stephie correram para sair do círculo, mas não conseguiram. Foram repelidas e jogadas com força contra o chão, onde foram atacadas pelas cobras, que pareciam se multiplicar toda vez que matávamos uma.

-Não podemos sair... - Stephie resmungou.

Ela se levantou rapidamente e afastou as cobras, atacando-as com duas navalhas. Ela aproveitou que as cobras se afastaram e ajudou Annie. 
Mais cobras apareceram, dessa vez maiores e mais difíceis de se derrotar. Flechas faziam pouco efeito nelas. Usar o fogo seria muito útil agora, mas eu ainda não conseguia usá-lo.
Gen, Merith e Ingo foram cercados pelas cobras. Eu me aproximei atirando flechas em direção das cobras, para distraí-las. Ingo as atacou com sua alabarda, como eu planejava que ele fizesse. Gen seguiu sua ideia.
Duas delas me agarraram por trás e me prenderam. Elas ameaçaram furar meu pescoço com suas presas, que gotejavam veneno. Elas foram rapidamente decapitadas e suas cabeças caíram no chão, passando pelo meu ombro. Yousuke as havia decepado. 

-Não ssssseria maissss fácil acabar com elessss de uma vez? - Snake perguntou impaciente.

-Não deve ser a última vez que te responderei isso. É mais prazeroso vê-los sofrendo lentamente antes da morte certa. - Richard o respondeu.

Eles estavam distraídos conversando entre si. Devíamos nos aproveitar disso, mas como? Estamos presos, sem poder sair. Sem magia. Mas parando pra pensar... nem todos de nós usam magia, não é?
Perto de mim, Melody usava um cajado para se defender das cobras. Então a única que dependia de magia era Merith. Mas mesmo assim não iríamos durar para sempre.
Me distanciei das cobras atirando várias flechas contra elas. 
Ingo parecia estar com problemas. Yuuya apareceu e cravou suas mãos em uma das cobras que estava prestes a mordê-lo. Não, não eram mãos. Agora eram garras. Ele parecia mais demoníaco a cada ataque. Isso poderia resultar em algo ruim?

-Está bem, isso está demorando de mais. - Richard bocejou. - Manter vocês nesse cativeiro é um método muito monótono de matá-los... 

Ela se aproximou do círculo com seu leque em mãos e o atacou furiosamente, como se tentasse quebrá-lo. A cúpula ao nosso redor permaneceu intacta, mas as cobras começaram a reagir aos golpes. Todas caíram no chão, parecendo mortas. Snape pareceu não gostar da ideia.

-O QUÊ PENSSSSSA QUE ESSSTÁ FAZENDO?! - ele gritou com ela.

Richard o ignorou completamente e depois voltou para seu posto anterior. As cobras estavam todas jogadas no chão, mortas. Mas se você pensa que elas ficaram assim, está enganado. Uma a uma, elas se levantaram devagar. Elas estavam deformadas e esquisitas. Algumas haviam perdido suas presas, outras seus novos "braços", mas todas tinham uma coisa em comum. Seus olhos negros e faiscantes. Suas escamas estavam cinza, quase brancas. 
Elas começaram a sibilar, o quê irritou meus ouvidos. Fomos todos obrigados a nos afastar delas. Nos afastar até não termos mais para onde recuar. 

-O quê fez com meussss bebêsss?! - Snape exigiu saber.

-Eu turbinei um pouco elas para acelerar o processo. - Richard tinha um sorriso no rosto.

Não era um sorriso agradável.
Símbolos e escrituras surgiram nas escamas das cobras. Elas se tornaram maiores e começaram a se enrolar em uma. Quando me dei por conta, todas formavam uma única cobras. Uma serpente com sete cabeças.

-Parece até uma hidra... - Misake sussurrou para si mesmo.

-Com um número menor, mais rápido vencemos. - Yuuya não parecia intimidado.

-Tomem cuidado... - Gen alertou. - Hidras são conhecidas por se regenerarem muito rápido, e numerosamente... Se cortar uma cabeça, nascem duas! Seria bom poder estudá-la agora...

-Não é momento para ser nerd, Gen. - Ingo deu um tapa por trás de sua cabeça.

-Eu disse PARECE, não É uma hidra. - Misake reclamou.

Ela começou a se mover em nossa direção, a maior parte das cabeças miravam diretamente em Melody e em Misake.

-Vamos ver que tipo de criatura é. - Yousuke correu em direção da serpente.

Ele se moveu rapidamente e se aproximou de um dos longos pescoços da criatura. Ela o acertou antes mesmo de conseguir mover sua espada. Uma criatura daquela tamanho não deveria conseguir se mover com aquela velocidade!

-É assim que eu imagino essa criatura. - Richard estava sentada no ar. - O quê acharam? Magnífica não é?

-Você... Corrompeu minha família... - Snape parecia muito irritado.

-São só répteis idiotas. E não ouse levantar a voz contra sua superior. - ela colocou seu leque contra o pescoço dele.

Ele ficou parado e quieto, obedecendo Richard.

-Bom garoto... Criatura... Seja lá o quê você for. - ela passou o espinhos na ponta de seu leque pelo braço-cobra dele.

Ele sibilou de dor. 

-O quê está esperando? Acabe com eles, criatura imunda. - Richard tinha um olhar diabólico.

A serpente nos encurralou com sua enorme cauda, nos cercando. Misake apontava uma arma para ela. Ele apertou o gatilho e um feixe de luz foi emitido na direção da cobra. Uma de suas cabeças caiu.
A cabeça da criatura se contorceu no chão, como se estivesse viva. Ela se deteriorou e virou uma poça de lama roxa, que certamente seria veneno, e a hidra começou a se regenerar.

-Certo... Richard prestou atenção na aula de história. - Stephie murmurou. 

-O quê nós vamos fazer? - Annie choramingou.

O quê iremos fazer? Eu também me fazia essa pergunta.
A criatura veio em nossa direção e tentou nos pegar com sua boca, tentou nos engolir vivos.

-Não somos ratos, cobra idiota. - Yuuya estava sendo erguido no ar pela criança transparente.

Todos conseguiram desviar, mas os golpes continuaram, um atrás do outro. Um de nós gritou. Misake havia sido pego. As presas da cobra atravessavam o seu braço esquerdo. Seu braço estava ficando roxo por causa do veneno.

-Muito mais eficaz, não acha? - Richard estava empolgada. 

Misake segurava uma arma com algo que parecia ser lava em sua lâmina. Eu não sei como ele havia se preparado para isso, mas ele estava preparado. Ele cortou a cabeça da hidra com a lâmina e começou a queimar o toco que foi deixado pela falta da cabeça. A hidra não conseguia se regenerar direito. As outras cabeças sibilaram ao mesmo tempo e o jogaram para longe. Ele bateu contra a barreira de força que nos cercava, e caiu com tudo no chão. Merith correu para ajudá-lo.

-S-Selion... V-você não poderia usar fogo agora? - o veneno estava paralisando Misake.

Olhei para minha mão. Nada de escamas, nada de garras, só uma mão comum e inútil.

-Eu não consigo! Eu não sei o quê está acontecendo! - eu me esforcei para tentar me transformar, mas não obtive resultado algum.

A hidra não deu tempo para nos recuperarmos, ela investiu diretamente para cima de nós. Annie e Stephie jogaram kunais e shurikens contra ela para tentar faze-la parar, mas só a atordoou um pouco.

-É inútil. Eu sei cada uma das técnicas de vocês, tudo o quê podem usar é inútil. Podem dizer que... Eu fiz meu dever de casa. - Richard falou, fria.

A criatura usou suas cabeças para agarrar Misake e Merith enquanto estavam distraídos. Merith gritou apavorada. Era de se esperar de uma típica "maga branca".
Misake estava totalmente paralisado devido ao veneno. Seu braço estava roxo e inchado, e haviam marcas parecidas com veias que partiam do lugar onde ele havia sido mordido. Troian e Melody fizeram sinais com a cabeça uma para a outra. Troian atacou a hidra para distraí-la. Funcionou, já que a hidra se enfureceu e partiu com todas as suas cabeças livres em sua direção. Nesse momento Melody aproveitou que estava distraída, e libertou Misake e Merith da hidra, usando seu cajado para abrir a boca das criaturas.
Tudo parecia certo, mas deu errado. A hidra deixou Troian de lado e atacou Melody. Eu não ia deixar isso acontecer, óbvio. Atirei flechas contra a hidra, e uma delas acertou seu olho. Algumas cabeças sibilaram, outras meio que rugiram de dor, mas havia funcionado, Melody não havia se ferido. Eu não sei o quê eu faria se ela se machucasse por culpa da minha incompetência.

-Está demorando de novo. Acabe com isso, bicho infernal! - Richard ordenou batendo seu punho no chão com força.

Mais cabeças surgiram, e a serpente começou a lançar fogo por sua boca. Péssimo sinal. A criatura começou a atirar fogo no chão, e a erguer sua cabeça em nossa direção. 
Eu podia estar sem poderes de dragão, mas uma coisa é certa: desde pequeno, sempre fui imune ao fogo. E não seria agora que isso iria mudar. Me locomovi em direção do fogo e deixei a criatura me acertar. Eu esperava só sentir uma brisa quente de verão, como sempre foi. Mas eu estava enganado.
O fogo, pela primeira vez, estava me machucando. Eu já havia mergulhado em lava, sobrevivido a incêndios, mas agora foi a primeira vez que o fogo me feriu. 
A hidra pareceu aproveitar a situação. Na verdade, parecia que estava testando sua nova força, seu novo dom.
Eu caí de joelhos no chão, com o corpo chamuscado. Eu não estava imune ao fogo, mas também não estava vulnerável. Afinal... Eu sobrevivi...

-SELION! - vozes atrás de mim gritaram. 

Merith e Melody se aproximaram. Merith tinha em mãos um pequeno tubo de ensaio tampado, já Melody segurava seu cajado com força.
Annie e Stephie passaram correndo perto de mim e foram em direção ao monstro.
Meus olhos se fecharam contra a minha vontade, e tudo ficou escuro.


...

-Selion... Acorde... - uma voz me chamava. 

-Essstá na hora... As pessoassss... Sofrer... - eu não conseguia ouvir tudo.

Me levantei devagar, eu estava zonzo. 
A minha frente, eu via Yuuya lutando usando somente seus punhos e garras para se libertar da hidra. Um pouco atrás dele, todos os outros haviam sido pegos e faziam de tudo para se libertar. Misake era o único que ainda apresentava sinais de envenenamento.

-O quê acha? Eu queria muito ver sua reação a isso tudo! Magnífico não é? - Richard aplaudiu.

Todos pregos. Só havia sobrado eu. E eu era inútil nesse momento. Aquilo em que eu era realmente bom, e que poderia fazer algo para nos ajudar, havia me deixado.
Mas eu não ia desistir. Peguei o arco e mirei em um dos olhos da hidra. Atirei com destreza, enquanto me aproximava com cuidado. A hidra desviou, e depois me atirou para longe. Bati direto contra a barreira, e fui repelido para perto da hidra, que novamente me atirou para longe. Meu arco estava longe de mim agora. 
Peguei a besta que havia recebido de Ingo e me aproximei da hidra. Mais uma vez, jogado para longe. Ele era rápido demais para mim.

-Selion, não desista! A derrota só existe na sua mente! - Gen não podia se mexer.

-Eu pensei que você valia mais a pena... Mas é só um mortal tolo que vai queimar no inferno... Você vai ver que não é ruim. - Yuuya tinha seu sorriso maior, e aparentemente, com mais dentes.

Misake, Annie e Melody estavam inconscientes.

-Quer ver eu mandá-lo para a morte certa? - Richard cutucou Snape, falando bem alto.

-Massss é claro! - ele respondeu.

Richard estalou os dedos. A boca da cobra que segurava Melody se abriu completamente e mudou de posição para que suas presas cravassem nela quando a boca se fechasse. A cabeça que segurava Misake e Annie fizeram a mesma coisa.

-Não... - engoli em seco.

Eu tinha que pensar em algo depressa, mas o quê eu poderia fazer?
O quê eu temia admitir era que eu não podia salvá-los... Mesmo se tentasse, eram três e eu sou só um! Era impossível impedir os ataques da hidra, pelo menos não de todas.
As bocas não se fecharam, parecia que estavam esperando algo. Talvez esperando que eu reagisse.

-Mate elessss de uma vez! - Snape exigiu.

-Calma, vamos ver como ele vai reagir primeiro. O negócio aqui é fazê-los sofrer, gastar tempo. - Richard explicou.

Eu via tudo vermelho e embaçado, eu estava desesperado. 

Lá de cima, todos estavam quietos e parados. Um movimento em falso e eles poderiam ter o mesmo destino dos outros.

-Mas você têm razão, esperar é chato. Vamos acabar logo com isso. - Richard bateu palmas.

A hidra ameaçou fechar suas bocas, o quê iria perfurá-los, e possivelmente leva-los a morte. 

-Diga adeus. - foram as palavras de Richard.

Senti meu sangue ferver. Tudo que eu via a minha frente era a cor vermelha e fogo. A hidra fez o movimento para fechar suas bocas, mas ela parou subitamente. Seus olhos estavam fixados em mim. Parecia que ela estava paralisada, como quando uma pessoa desloca o maxilar. 
Por algum motivo, eu parecia estar distante do chão. A hidra parecia estar amedrontada. Eu podia sentir que meu corpo estava coberto de chamas novamente. O quê aconteceu a seguir não foi por minha vontade, eu não tinha mais controle sobre mim. Eu estava enraivecido.
A hidra voltou a se mover, e tentou novamente matá-los. Eu levantei minha mão e a hidra foi jogada para o lado por uma rajada de fogo. Minha respiração estava ofegante. O chão parecia estar cada vez mais longe.
A hidra largou os demais no chão, jogando-os com força, mas continuou com Annie, Misake e Melody, que ainda não haviam acordado. No chão, os outros pareciam assustados.
A cobra de múltiplas cabeças não desistiu. Me atacou com as cabeças restantes, e fincou as presas em suas vítimas. Eu emiti um rugido ensurdecedor. Nem parecia que era eu. A hidra largou eles no chão, sibilando vitoriosa. Simplesmente peguei duas de suas cabeças usando minhas garras, sendo uma delas a do meio, e as apertei com força. Ela tentava me morder para se libertar, mas eu não sentia dor alguma. Seus olhos chegavam a saltar das órbitas, enquanto o fogo ao meu redor queimava seu corpo. Eu não pensava no que estava fazendo, foi tudo involuntário, por impulso.
A hidra estava desesperada para se libertar. Mas ela não era a única desesperada, já que não muito longe de mim, eu podia ouvir Snape chorar por sua amada hidra.
Eu fechei completamente minha mão ao redor dos pescoços dela. As cabeças explodiram. 
Ela não teve nem tempo para tentar se regenerar. O fogo que nos cercava se aproximou de seu ferimento e o cicatrizou. Era tarde demais para ela. Repeti o processo com as outras cabeças. Ela tentou fugir, mas a barreira de proteção a impedia.
Eu não tinha notado antes, mas eu não estava do tamanho de sempre. Minhas mãos estavam enormes, meu corpo de dragão estava maior. Eu era praticamente do mesmo tamanho da criatura.

-DESSSSFAÇA ESSSSSSA BARREIRA AGORA, TIRE ELA DE LÁ! - Snape gritava com Richard desesperado.

Terminei com o resto das cabeças. Elas não tiveram nem tempo para reagir. Agora só restava o resto do seu corpo caído e uma grande poça de sangue. 
Meu reflexo me encarava na barreira. No quê eu havia me transformado?
Eu tinha espinhos semelhantes a garras por diversas partes do corpo, como braços e pernas, chifres curvados para baixo saíam de minha cabeça. Minhas garras estavam muito maiores, junto com o resto do corpo. Eu andava inclinado, e minhas asas estavam muito maiores, embora estivessem escondidas atrás do meu corpo. Minhas escamas que costumavam ser prateadas, agora estavam vermelho sangue. E meus olhos pareciam os de um animal. Um animal selvagem que não pensa, só age. E era isso que eu tinha acabado de fazer.
Atrás de mim, todos me encaravam assustados com minha aparência de agora, exceto Yuuya. Ele parecia não se importar.
Meus olhos cravaram em Richard. Ela não parecia amedrontada, pelo contrário. Ela estava calma, calma demais. Ela estalou os dedos e o corpo da hidra evaporou, se tornou um gás verde. O gás se espalhou até mim e tocou no fogo. Houve uma explosão.
Minha primeira preocupação foi se alguém havia se ferido. Por sorte, não. Um escudo cobria a todos. Minha segunda preocupação foi vingança. A barreira estava completamente rachada. Um simples toque com a minha garra a quebrou em pedaços. Agora sim, Richard se sentiu insegura.

-SSSSUA INSSSOLENTE! COMO PÔDE DEIXAR ISSSSSO ACONTECER?! - Snape brigou com ela.

-Cale a boca, menino cobra. - ela cravou seu leque em seu braço.

Ele ficou de joelhos no chão com a mão em seu braço. Lágrimas saíam de seus olhos.
Minhas asas se abriram sem minha permissão. Elas foram para frente e bateram para trás. Um grande vento foi criado, que jogou os dois vilões para trás.
Richard começou a rir como uma condenada.

-FINALMENTE! - ela continuou com sua risada histérica. - Finalmente se libertou! Agora os jogos ficarão interessantes!

-EU NÃO TENHO TEMPO PARA ISSO! - minha voz saiu como um rugido ensurdecedor.

Eu me movi rapidamente até ela, e usei meu punho, que era maior que ela mesma, para socá-la contra o chão. Eu ouvi estalos. Seriam seus ossos quebrando?
No chão, ela parecia não se importar.

-Selion, Selion, Selion... - ela repetiu algumas vezes. - Não vê o quê está fazendo? Não se sente mal por ferir, bater, acabar com a raça de sua amiguinha?

Eu tive que fazer muito esforço para parar a tempo antes de machucá-la mais ainda.
Por mais que eu a odiasse, ela tinha razão. Eu não poderia matar a Richard. Mas eu não tinha escolha naquele momento, eu não fazia escolhas.
O corpo dela foi rodeado por fogo e fui obrigado a dar mais golpes contra ela. Um vulto apareceu a minha frente. Primeiro eu o atravessei sem problemas, mas então ele tomou forma. Melody me encarava de braços cruzados.

-Não está tentando matar a Richard, não é? - ela perguntou.

Eu tive que me atirar para o lado para me impedir de continuar os golpes. Tentei me acalmar. Uma nuvem de fumaça surgiu com a minha queda. Eu continuava com muita raiva, era como se minha cabeça estivesse explodindo com tantas emoções confusas ao mesmo tempo. 

-Você... Não estava inconsciente? - consegui perguntar.

Minhas voz ainda saiu como um rugido, e mais chamas saíam de minha boca toda vez que eu a abria. Eu não conseguia nem controlar minhas chamas, como controlaria meu corpo? 

-Eu interferi nisso... - uma voz familiar respondeu.

Virei a cabeça para o lado. Mais poeira levantou. Depois que ela abaixou, vi Gen próximo a mim, passando as mãos nos olhos.

-Sabe... Precisávamos de você fora de controle. Com raiva, tristeza, tudo ao mesmo tempo. Eu vasculhei a mente de todos, e a sua foi a que mais me intrigou. - ele começou a se explicar. - Têm coisas quê você sabe que nem você sabe, sabia?

Bati meu punho cheio de escamas no chão. Mais poeira.

-Ok, vou tentar ser direto... - ele tossiu um pouco. - Eu troquei um pouco sua visão. Você via Melody, Annie e Misake, certo?

Fiz que sim com a cabeça. Eu respirava fundo para manter o controle.

-Na realidade quem estava inconsciente era Misake, Merith e Yuuya. Ele foi bastante prejudicado pelo veneno, entende? 

-Está dizendo... Que você usou seus poderes em mim? - meu corpo tremia.

-Perdeu o controle de novo... Melody, pode me fazer um favor e ficar na minha frente? - Gen pediu.

-Por quê? - ela perguntou enquanto flutuava lentamente para perto dele.

-Eu li a mente dele, ele não vai te machucar, sabe? Seus pontos fracos são você, seus mascotes e o resto de seus amigos, nesta ordem. Ele também desmaia com um beliscão no pescoço, sabia? - ele estava repetindo a palavra sabia e sabe vezes demais.

Aquilo não me ajudava com meu status de estresse atual. Me levantei e levantei meu punho contra ele.
"Não, não vou fazer isso!" eu repetia por pensamento.

-Como fazemos ele voltar ao normal? - Annie quis saber.

-Não sei. Mas eu conheço alguém que sabe. - ele deu um tapa nas costas de Annie. - Selion, se acalme por enquanto, sim? Ainda temos assuntos inacabados.

Snape estava perto do corpo da hidra. Ele havia sido totalmente queimado pela explosão, e o que sobrou do seu corpo ainda pegava fogo. Ele estava deitado sobre o corpo sem cabeça.
Richard estava imóvel no chão. Eu havia realmente a machucado. Agora ela se encontrava inconsciente.

-Snape ainda é um problema. - voei até ele com os olhos em chamas.

O bater das minhas asas criava rajadas de vento poderosas. 
Snape nem me viu chegar. Tudo que eu consegui emitir foi um rugido.

-É BOM QUANDO VOCÊ É O MACHUCADO? - eu estava pronto para esmagá-lo como um inseto.

Mas ele se virou para mim. Seus olhos choravam sangue. Mais sangue ainda saía de sua boca. 
"O quê...?"

-Pode matar... - ele limpou os olhos e se afastou das cobras. - Eu falhei com meus amigos, minha família... Eu arrisquei todos eles. Eu não mereço viver.

Ele abriu os braços-cobra dele a minha frente. Ele realmente estava ferido, mas não fisicamente. Eu vi todos atrás de mim pelo canto do olho. Eu não sei o que faria se algo acontecesse a eles.
Deixei Snape de lado e saí bufando. Eu já estava mais tranquilo naquele momento.

-O quê faremos com Richard? - Stephie analisava cuidadosamente seu corpo estilhaçado no chão.

-Eu já preparei vocês pra isso, não prestaram atenção? Selion, cadê suas flechas? - Ingo estalou os dedos.

Se eu falasse com ele, não seria palavras que sairiam de minha boca.

-Alô? Seu modo dragão é mal educado ou o quê? - ele bateu os pés no chão, impaciente.

Gen pedia para ele se acalmar e não aumentar o tom de voz, mas ele não obedeceu.

-ESTOU FALANDO COM VOCÊ! - Ingo gritou.

-Danou-se... - Melody e Gen murmuraram.

-Há, adivinhei o quê você ia dizer. - Gen riu.

Pisei no chão próximo a Ingo e ele foi derrubado. Nada que machucasse pra valer.

-Ele têm muita força de vontade... - Troian observou.

-Força de vontade? - Ingo se levantou com dificuldade.

-É. Dragões são impulsivos, controlá-los é muito difícil. Com outras criaturas é a mesma coisa... Requer muito esforço pra um demônio não perder o controle, como no caso do Yuuya por exemplo. - Troian explicou. - Só que ele não teve força pra isso, por isso desmaiou.

Me sentei no lugar onde o círculo da barreira tinha começado. Eu queria voltar ao normal. Estar naquela forma era muito arriscado. Um passo em falso e eu destruiria todos eles.
Melody se aproximou.

-Ouvi dizer que isso podia te ajudar. - ela estalou os dedos. - Espero que ajude,

Uma enorme estaca de gelo surgiu logo a minha frente.

-Mas dragões não morrem no frio? 

-Experimente, talvez dê certo. - ela pediu.

Eu peguei o grande pedaço de gelo. O fogo que saia de meu corpo ia derretê-lo rapidamente. Eu masquei o gelo como se fosse alimento. Aquilo realmente me ajudou a clarear mente.

-Parece que Gen acertou. - Melody pensou alto. - Você não está bravo por ele ter bagunçado sua cabeça, ou está?

-Não... Foi só um momento estressante... - eu terminei com o gelo.

O fogo abaixou, e eu podia sentir que estava voltando ao tamanho original devagar.

-Você têm alguma ideia do porque o meu tamanho ter aumentado? Eu vi meu reflexo... Não parecia eu... - contei.

-Eu gostaria de responder, mas eu só sei o quê você sabe. Sinto muito. - ela se desculpou.

A essa altura, eu já estava no meu tamanho normal de dragão, mas eu ainda não estava bem. Eu podia não estar parecendo um megazord, mas parecia que isso intensificava minha perda de controle. Eu tentei me afastar um pouco de Melody, mas meu corpo não se movia.

-Peço que se afaste, por favor... - pedi.

-Não tenho medo de você, não se preocupe. Não preciso ler mentes pra saber que você não machucaria nenhum de nós. - ela estava agindo normalmente, mesmo comigo perdendo a cabeça.

Respirei bem fundo e me concentrei na minha forma humana. Eu não queria, e nem tinha que ferir ninguém nesse momento, esse não era meu problema.

-Com licença, mestre... - Polar apareceu na minha frente. - Sei que não é uma boa hora, mas devo lhe entregar isto? 

Ele tinha meu arco e minha aljava em mãos. 

-Como vou atirar flechas nesse estado? - eu pressionava os dentes para manter a calma.

-É só você voltar ao normal. - sua voz saiu metálica e fria como de costume, meio computadorizada.

Eu fechei o punho para não atacá-lo. É difícil entender que eu não faço ideia do que estou fazendo?
Melody se aproximou de mim.

-Já sei qual é o problema. Você não está tentando se acalmar, está se obrigando a relaxar. - ela explicou.

-Como é? - Polar pareceu bem surpreso, mesmo não tendo expressões. - Jamais entenderei esses sentimentos humanos.

-Tente pensar em algo que você gosta e esqueça de tudo que está te incomodando, esqueça até que você quer ficar calmo, se concentre naquilo que você está pensando. - ela sugeriu. - Geralmente eu faço assim. Quando se vive com tanta gente, você acaba tendo momentos de estresse...

Respondi que ia tentar, e me concentrei. Sentei no chão e fechei os olhos. A primeira coisa que veio a minha cabeça era que eles contavam comigo. Eu só atrapalharia se ficasse como um dragão impulsivo o tempo todo. Obviamente não ajudou.
Depois eu pensei no que já tinha acontecido até agora, os amigos que fiz nesse curto período de tempo. Óbvio que meu pensando focou em Melody.
Aos poucos, pude sentir o fogo ir embora. Acho que tinha funcionado.
Abri os olhos devagar, com um pouco de medo de não ter funcionado. Examinei minhas mãos. Sem escamas.

-Funcionou... Realmente funcionou! OBRIGADO, MELODY! - eu a abracei.

-Não precisa agradecer, eu não fiz nada. - ela respondeu contente.

-Caham... - Polar fingiu tossir. - Antes que você acabe ficando "feliz demais", temos assuntos para resolver.

-Porque você tem que ser tão sério e quadrado? - murmurei.

-Minha cabeça é redonda... - ele passou a mão pela cabeça. 


...

Peguei meu arco e a flecha especial que havia recebido de Ingo, a flecha de ponta dourada. Todos nos reunimos ao redor de Richard.

-Devo acertar ela com a flecha? Tipo, ela está totalmente quebrada e indefesa no chão... - eu cutuquei ela com o arco devagar.

-Olha, tinha uma razão pra eu te dar a flecha, sabia? Você deveria ter usado ela antes, pra falar a verdade. - Ingo brigou.

-Pra quê todo esse estresse no coração? - Annie quis saber. - A raiva não está com nada.

Troian e Stephie cuidavam dos feridos próximos a nós. Tínhamos que agir rápido, logo chegariam mais inimigos. Yousuke agia como guarda, prestando atenção ao cubo a nossa frente.
Merith já havia acordado, ela foi a menos prejudicada pelo veneno, mas mesmo assim ainda se sentia mal pela ação do mesmo. Ele insistiu em poder ajudar a tratar dos feridos.

-Certo, vou fazer isso. - suspirei.

Peguei a flecha e a coloquei no arco, mirando em Richard.

-Atira no braço, vai doer menos. - Ingo sugeriu.

Mirei no seu braço e atirei. A flecha cravou em seu braço e começou a brilhar. Uma fumaça preta saiu de seu corpo, e seu cabelo escuro voltou a ser azul-marinho. Era um bom sinal.

-Do quê essa flecha é feita? - eu tirei a flecha do braço dela.

-Vácuo. Nada mais que isso. Minhas armas são feitas disso, só que algumas tem efeitos diferentes que outras, mas todas são formadas do mesmo vácuo. - Ingo mantinha um espaço entre as suas mãos, como se manipulasse algo entre elas.

Ouvi um assobio. Nossa atenção foi voltada para o lugar por onde havíamos entrado. Adrian e Éolo estavam lá.

-Eu SABIA que estava faltando alguém! Onde vocês estavam? Porque sumiram? Na verdade, como sumiram? - eu os enchi de perguntas.

-Tudo vai ser respondido com o tempo. - um homem apareceu atrás deles.

Ele tinha um machado em mãos. Eu me lembrava dele, ele estava reunido conosco antes de entrarmos nesse covil, mas por algum motivo havia se separado. Sua armadura estava cheia de arranhões.

-E quanto a capitã Raida? Ela não acabou com os guardas? - Yousuke perguntou sem abandonar seu posto.

-Um alarme foi disparado, algumas tropas estão tentando entrar aqui. Ela me mandou uma mensagem pedindo ajuda, por isso voltei até vocês. No meio do caminho, convenci esses dois a virem comigo, vocês nem notaram, mas tudo bem. - ele tinha uma voz firme como a de um soldado.

-Então Raida vai ficar lá tomando conta daqueles que chegarem... Típico dela, não se cansa de uma luta. - Troian adivinhou.

Adrian, Éolo e a pessoa com o machado, se aproximaram de nosso grupo. 

-Antes que comece a se perguntar... Seu nome é Aslan, ele é um druida. - Gen se antecipou.

Agora que eu tinha parado para ver direito, ele tinha orelhas pontudas. Seu cabelo era castanho claro, e seus olhos eram laranja. 

-SENHORAS E SENHORES! - uma voz anunciou.

Eu nem precisei ver quem falava, ou ouvir a voz da pessoa para saber de quem se tratava. Gar.

-GOSTARAM DO TEMPO PARA O DESCANSO QUE DEI PARA VOCÊS? - a voz dele vinha de alguma caixa de som, em algum lugar. - ESPERO QUE SIM, PORQUE NÃO HAVERÁ OUTRA. E AGORA COM MUITO PRAZER, QUE EU APRESENTO SEUS PRÓXIMOS OPONENTES!

Sylfer apareceu com o menino sombrio dos revólveres atrás dele. Esse menino tinha um revólver em uma mão, e um cajado em outra. No topo do cajado, havia uma pedra negra. A pedra da escuridão!
Analisei cada um de nós, para ter certeza se todos estavam em condições para batalhar. Misake ainda estava muito ferido, mas eu não conseguia mais ver efeito algum de veneno nele. Yuuya não mexia seu braço que foi pego pelo veneno e Merith já estava bem, embora estivesse com a mão livre tapando o seu braço ferido.

-Conhecem meu amigo Reap? - a voz de Gar nos perguntou. - Mostre para eles o quê pode fazer.

Reap vestia um manto que cobria todo seu corpo mas deixava as mãos livres. Seus olhos pareciam estar vazios.
Ele deu um passo a frente e levantou seu cajado. O chão ao redor dele se desintegrou e o teto do lugar foi substituído por um céu noturno, com uma lua sangrenta no topo.
O chão ficou escuro como a noite. Dava a sensação de que não pisávamos em nada.

-Vocês conseguem enxergar no escuro? - ele perguntou. - Garanto que seria uma habilidade útil agora.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

As Pedras de Elementra. Parte 2. Capítulo 13.




13. O Núcleo da Destruição.


-Quero que vocês estejam cientes de que essa missão é a mais perigosa de todas entre as que já passamos. Se alguém acha que não aguenta, eu não vou obrigar a ficar. - Kathryn esclareceu.

Estávamos reunidos em uma cidade devastada. Só restavam ruínas. Se o mapa ainda estiver certo, nós estamos muito próximos de nosso objetivo. Eu tinha certeza que ninguém fugiria. 

-Não se preocupe conosco. - Adrian pediu animado.

-Isso não é brincadeira. É algo bem sério, Adrian. Vocês podem perder suas vidas! Mas por um bem maior, é claro. - Misake o respondeu. 

Adrian parecia nem ter ligado. Ele estava confiante, muito confiante. 
Vi Kathryn se aproximar de Misake de repente, e sussurrar algo em seu ouvido. Misake permaneceu sério e pegou seu cubo, onde havia guardado suas máquinas. Ele começou a analisar as coisas que haviam dentro dele, procurando algo. E durante todo o tempo, Kathryn ficava me vigiando disfarçadamente. Ela não fazia isso muito bem.

-IAHOOOO! - um grito foi ouvido.

Ele vinha de cima de nós, mas o céu estava vazio, sem nuvens nem nada.

-Chegaram. - Kathryn anunciou.

"Estávamos esperando alguém?" pensei em dizer, mas soaria bem idiota, então fiquei quieto.

-Quem chegou? - Adrian perguntou enquanto coçava sua orelha.

Uma fumaça se espalhou pelo lugar, nos fazendo tossir. O vento estava forte, e a dissipou rapidamente. Quando conseguimos enxergar direito, vi duas meninas paradas a nossa frente. Uma tinha cabelos cacheados e escuros, com olhos mais escuros ainda, e usava um kimono preto. E a outra a seu lado também tinha olhos castanhos, porém tinha um longo cabelo liso, da mesma cor de sua companheira, e usava uma boina. Ela usava um kimono preto também.

-Selion e Adrian, estas são Annie - Kathryn apontou para a menina de boina. - e Stephie. Duas ninjas, se não conseguiram identificar. 

Notei que havia um lobo cinzento atrás delas. 

-Olá novos recrutas! Este é o Wulf. - Annie acariciou o animal.

Stephie nos encarava, ela parecia ser bem séria. Ela estava segurando uma foice.
Ouvimos alguns barulhos estranhos e nos viramos para ver o que era. Mais algumas pessoas se aproximavam. Eu reconheci uma delas.

-A quanto tempo, não? - Éolo nos cumprimentou.

Atrás dele, haviam cerca de 8 pessoas. Entre elas, alguns animais.

-Já chegamos? Já chegamos? - uma criança que aparentava ter uns 5 anos perguntava sem parar.

-Sim, sim. - a pessoa a sua esquerda respondeu.

A criança tinha cabelos loiros e tinha uma pele transparente. Ele flutuava no ar, ao lado de seu amigo. Parecia uma espécie de espírito ou fantasma, que usava um manto branco. Ele flutuava um pouco acima da cabeça de um garoto coberto por um capuz. Eu não conseguia ver seu rosto, mas ele segurava um cubo estranho que emitia um brilho vermelho.

-Estou notando pessoas novas aqui. - uma mulher ruiva disse, com um tom arrogante. - Trouxe novatos para o campo de batalha?

Ela se aproximou de Kathryn com uma espada enorme atrás das costas. Ela tinha arranhões em todo o corpo. Quando se aproximou, Kathryn sussurrou algo para ela. Eu não consegui entender o quê.

-Você já ouviu o nome Gar? - uma pessoa disse atrás de mim.

Eu me virei surpreso, mas não havia ninguém lá.

-Parece que sim. - a voz soou atrás de mim novamente.

Me virei novamente, e dessa vez vi um homem um pouco mais baixo que eu, usando roupas em tons de roxo e um chinelo. Seu cabelo era branco e seus olhos eram dourados. Ele me encarava de uma maneira estranha, como se pudesse ver atrás de mim.

-Você conhece Gar? - ele perguntou.

-Sim. Ele meio que tentou me prender em um sonho estranho, algo assim. - respondi.

-Sinto muito pelos problemas que ele causou. - ele se inclinou. - Por favor, entenda, ele não é mau... Só tomou decisões erradas.

-Que história é essa? - Melody se aproximou. - Esse Gar me prendeu em um lugar cheio de aranhas! Como ele não pode ser do mal?! 

-Meu nome é Gen. Gen Nightmare Baku. - ele se apresentou. - E Gar é meu irmão. 

-Eu não conheço você... - Melody falou.

-Eu entrei a pouco tempo para o grupo, com o objetivo de trazer meu irmão para o bem de novo. Ele foi corrompido, não tem culpa pelo que faz. - ele se explicou. - E sei o que está pensando, Selion. Eu não vou te prender em uma ilusão, não se preocupe.

-Ele é um psíquico. - a ruiva se aproximou e colocou a mão na cabeça dele. - Não se assuste, novato. 

Ela usava uma armadura vermelha escarlate que cobria uma parte de seu corpo. Seus olhos eram verdes e seu cabelo era comprido.

-Selion, esta é a Raida, líder do nosso grupo do Japão. - Melody explicou.

Raida me olhava de uma maneira séria. Era meio desconfortável. 

-Estão todos aqui. - Misake disse alto para Kathryn.

"Só isso? Um grupo de umas 15 pessoas para derrotar um exército inteiro?!" pensei preocupado. 
"Não conseguiremos vencer desse jeito... Ou será que sim?"

-Um minuto de atenção, por favor. - Kathryn pediu. - Estão reunidos aqui, as pessoas que acharam que tinham poder suficiente para derrotar a Grand Destruction. E hoje nós daremos um fim nessa guerra. 

Analisei as pessoas ao redor. Todos estavam sérios enquanto olhavam para Kathryn. 

-Nós somos a nossa principal linha de ataque. O resto de nossos companheiros irão chamar a atenção da Grand Destruction, e é nesse momento que iremos atrás de Aron. - Kathryn explicou.

Todos soltaram murmúrios preocupados.

-Aron? Aron está aqui? 

-Como ele se libertou?

-Ainda temos chances?

Kathryn bateu palmas para chamar a atenção de todos.

-Sim. Aron e Mellany estão livres. Mas provavelmente ainda não em suas formas físicas. Quando nosso exército atacar, eles vão se distrair e mandar suas tropas contra as nossas. Iremos diretamente até eles nesse momento. - Kathryn tentou os acalmar, enquanto terminava de contar seu plano.

-E quanto as pedras? - um homem de armadura, que segurava um machado, perguntou.

-Eu as usarei no momento certo. - Kathryn o respondeu sem pensar duas vezes.

"Ela estava mentindo para eles se sentirem melhor... Poucos de nós sabíamos que não tínhamos mais todas as pedras." 
Gen fez uma cara de espanto. 
"Ele não leu meus pensamentos, certo?" pensei comigo mesmo.
Ele disse que sim com a cabeça.
Os outros ao redor já haviam superado o susto, mas Gen sabia a verdade. 
Um barulho foi emitido. Misake pegou um aparelho que parecia uma moeda fluorescente. Uma tela holográfica foi emitida pelo aparelho.

-Estamos prontos! Ao seu sinal! - um homem de armadura notificou. 

-Estamos prontos. Vamos ganhar essa guerra! E vocês sabem que eu não gosto de perder. - Misake ordenou.

A mensagem desapareceu no ar.

-Vamos aguardar 5 minutos para agir. Se formos muito cedo vamos ser presas fáceis. - Kathryn explicou.

Todos estavam sérios e tensos, já segurando suas armas.
Ao meu lado, um cavaleiro parecia falar com sua espada. Ele usava uma armadura prateada e tinha cabelo escuro com olhos azuis.

-Sim, ele está conversando com a espada dele. - Gen respondeu aos meus pensamentos. - Aquele é o Yousuke. O braço direito de Raida, o escudeiro dela. Se você pensa que sua infância foi sinistra, nunca viu a dele.

Não precisei nem falar para obter respostas dele.

-A Grand Destruction dizimou a cidade dele... Seus amigos, família... Todos em uma única noite. Até onde sabemos ele foi o único sobrevivente. Quando Raida o encontrou ele já tinha essa espada, e dizia que ela podia falar. - Gen contou.

Observei sua espada. Sua lâmina era negra e havia um brasão em seu centro. 
Não muito longe de mim, Kathryn não tirava o olho de seu relógio. O tempo estava demorando para passar.

-Com licença? - alguém pediu. 

-Sim...? - respondi.

Era um garoto que aparentava uns 10 anos. Ele tinha uma expressão séria em seu rosto. Seu cabelo era loiro, um loiro bem claro que chegava quase a ser branco, e seus olhos eram verdes, um verde fluorescente. Ele vestia uma camisa azul turquesa e uma calça preta. Em seu ombro havia uma pequena criatura. Ela tinha seu corpo coberto por roupas de folhas. Eu identifiquei a raça da criatura imediatamente. Era um dos Leafos.

-É melhor segurar isso. - ele tinha uma flecha em mãos.

Eu segurei a flecha. Ela era macia, como se fosse feita de algodão, e em sua ponto havia um líquido vermelho.

-Por que me deu isso? Aliás, qual seu nome? - questionei.

-Ingo. Eu sou um artesão do vácuo. Coisas vem a minha mente e então eu as crio. Não me pergunte porque, mas essa é sua. - ele se explicou com poucas palavras.

Eu tinha a sensação de já ter visto aquele tipo de flecha antes, e não era a primeira vez que eu sentia essa sensação.
De um momento para o outro, um escudo apareceu nos braços de Ingo. Ele andou até Yousuke e o presentou com o escudo. Ele o aceitou e então agradeceu.

-Annie e Stephie vocês sabem o quê fazer. - Kathryn as ordenou.

Elas desapareceram no ar. Wulf, seu lobo, começou a correr na direção norte, como se estivesse indo trás delas.
Raida e Kathryn ainda me encaravam estranhamente. Quando perceberam que eu as tinha visto, elas trocaram olhares e fingiram que estavam falando entre si.
Qual era o problema delas?!

-Gen, quem são eles? - apontei para o menino de capuz e a criança flutuante.

Ele pareceu estranhar o que eu disse.

-"Eles"? - Gen perguntou. 

-Sim, "eles". O menino de capuz e a criança flutuante. Não consegue vê-los? 

-Eu só vejo o Yuuya. Não sei de criança nenhuma... - Gen coçou a cabeça.

Isso estava muito estranho.
Notei que Éolo estava logo a minha frente. Resolvi perguntar a ele se ele também não conseguia ver. Ele só via a pessoa de capuz.

-Gen... O quê ele é exatamente? - perguntei.

-Não sei, só sei seu nome. Nunca vi em combate. - ele respondeu rapidamente.

Eu o chamei e me aproximei. Minha ideia era perguntar diretamente para ele. Se ele não soubesse porque eu vejo aquele espírito, quem iria saber?

-Você é o Yuuya, certo? - perguntei.

Ele encarava o chão como se nem soubesse que eu estava ali.

-Olá... - ele permanecia com o olhar reto ao chão.

-Sabe... Têm uma espécie de espírito logo acima de seus ombros... Vim perguntar se você está ciente disso... - expliquei.

-Você pode vê-lo? - ele perguntou virando para mim, mas ainda sem levantar a cabeça.

A criança flutuante ficou intrigada e começou a flutuar próximo a mim.

-Como você pode vê-lo?! - Yuuya parecia não acreditar.

Dei de ombros. Se ele não sabia, como eu saberia?

-O quê você é? Uma espécie de médium? - perguntei.

-Eu... Sim, sim... Isso mesmo, médium. - ele respondeu estranhamente.

Aquilo não me passava muita confiança, mas de repente ele podia só estar meio confuso ou abalado pelo confronto que se aproximava. Eu que não iria culpá-lo.
Um vento forte começou a soprar e levantou um monte de areia, que acabou ofuscando minha visão. A nuvem de areia e poeira que se formou se dissipou rapidamente, e pude ver uma menina com um longo e liso cabelo preto usando uma jaqueta preta sob uma blusa azul. Ela tinha olhos verdes e usava em seus pés um par de botas pretas. 

-Eu cheguei! Me desculpem pela demora, surgiram contratempos. - ela se desculpou.

-Você chegou bem na hora, Troian. - Melody a respondeu. - Um pouco mais tarde e teria perdido a diversão.

-Como se eu fosse perder a derrota da Destruction. - ela riu.

Em seus ombros havia um gato preto, com olhos totalmente negros. Ela o acariciava enquanto se aproximava mais de nós.

-Olá, Dark! - Kathryn se aproximou dele e fez carinho no animal.

Um "bip" começou a tocar vindo de Misake. Ele levantou a cabeça com os olhos parecendo brilhar.

-Pessoal, chegou a hora. - Misake anunciou. - Vamos acabar com isso de uma vez!


...

A área devastada realmente era perto da base da Grand Destruction. Não demoramos nem 5 minutos para chegar até lá. Mas claro, usamos um feitiço para nos camuflarmos até lá. Eramos um grupo grande demais para sairmos desprotegidos.
Chegamos em uma espécie de pirâmide asteca que estava caindo aos pedaços.

-É isso? - sussurrei para Misake. - Essa é a base? 

-Sim. Vamos entrar. - ele respondeu.

Eu estava meio decepcionado. Eu esperava algo maior, muito maior.
A minha frente, Misake e Kathryn nos guiavam até uma entrada. Entramos por ela devagar, um de cada vez devido ao espaço pequeno. A entrada estava escura, mas foi ficando mais clara conforme andávamos. Quando paramos, eu fiquei chocado.

-Chegamos. - Kathryn sussurrou. 

Aquilo não era uma pirâmide asteca. Pelo menos não por dentro. 
Estávamos na entrada de um castelo. Um castelo enorme com um cubo maior ainda flutuando em cima dele, preso por correntes. Em volta do castelo havia um poço de lava. Tive que me controlar para não pular lá.

-U-uau. - Gen gaguejou. - É... Muita coisa para dar conta...

-Do quê está falando, Gen? - Melody perguntou. 

-Têm uma energia muito forte fluindo por aqui... Está me dando dor de cabeça! - ele se queixou.

-Deve ser a força espectral daqui... - Kathryn explicou. - Existem muitos membros da Destruction que usam espíritos corrompidos ao seu favor. Isso mexe com aqueles com poderes psíquicos.

Gen esfregava sua cabeça com uma cara péssima.

-Isso vai passar. - Kathryn o consolou.

-Logo você irá se acostumar... - Troian tentou ajudar.

Misake segurava uma arma estranha com uma esfera brilhante em seu centro. Se assemelhava a uma pistola, só que de uma maneira meio futurista. Ele continuou nos guiando até uma parede do castelo.

-Perfeito, sem muitos guardas. - ele disse enquanto usava um par de óculos de lente vermelha. - Melody, faça as honras.

Ela se aproximou da parede e a tocou com sua mão. A parede se desmontou e caiu no chão. Os olhos dela estavam púrpura.
Kathryn fez um sinal para Annie e Stephie. Elas balançaram a cabeça e atiraram kunais em alguns guardas inimigos que estavam desatentos. Eles caíram rapidamente. Porém mais guardas apareceram.

-Finalmente vai começar a ficar interessante. - Raida riu.

Ela correu na direção dos guardas e cortou o ar com sua espada na direção deles. Uma rajada de vento os derrubou, cortando suas armaduras.

-Incrível! - Ingo aplaudiu. - Opa, lá vem mais uma.

As mãos de Ingo brilharam, e cubos de gelo apareceram em sua mão.

-Essa eu não entendi... Porque cubos de gelo? - indaguei

Ele deu os cubos de gelo para Gen, que os colocou na boca.

-Parece que isso vai ajudá-lo a suportar a dor de cabeça... Ou então ele só estava com sede. - Ingo deu de ombros.

-Não temos tempo a perder. - Misake chamou a atenção de todos. - Raida vai cuidar desses guardas, vamos aproveitar essa chance para continuar!

Corremos em direção a uma entrada lateral do castelo. Annie e Stephie arrombaram a porta silenciosamente, e nós progredimos até um lugar que parecia ser uma prisão.
Haviam várias pessoas presas lá, implorando por libertação.

-Não devíamos ajudá-los? - pensei alto.

-Se os libertarmos agora, eles vão entrar em pânico e fugir, chamando a atenção, vamos voltar aqui mais tarde. - Misake respondeu virando o corredor.

Ele começou a andar mais devagar pelo corredor sombrio. Aquele lugar parecia uma casa assombrada que as pessoas montam no dia das bruxas, com símbolos macabros nas paredes, sinal óbvio de magia das trevas, paredes de pedra totalmente desgastada, sem falar da iluminação precária.
Nós seguíamos encostados a parede, atentos para qualquer coisa. Kathryn acelerou o passo e ultrapassou Misake.

-Vá com eles, eu vou atrás das pedras. - ela falou.

-O quê? E se as pedras estiverem com Aron? - Misake retrucou.

-Ele não as carregaria sem ter todas. Eu tenho certeza disso. - ela seguiu outra direção.

Misake seguiu seu rumo original, até pararmos bruscamente.

-Essa não... - ele murmurou.

Logo a nossa frente, havia um cão preso a uma coleira. Ele estava dormindo.

-Está com medo de um cachorro? Patético, sinceramente... - Éolo zombou.

-Quem não teria medo de um cão infernal? Ele pode estraçalhar você em segundos! Vamos devagar e com cuidado. Os mais barulhentos que vão voando. - Misake respondeu friamente.

Todos caminhamos com cuidado, evitando nos aproximar do animal. Yuuya não parecia muito preocupado com o cão, tanto que ele nem sequer viu o animal, simplesmente saiu andando sem ligar para ele. Troian atravessou o caminho em uma velocidade incrível, era como se ela estivesse se teletransportando.
Adrian foi o último a atravessar. Começamos a nos afastar devagar, até que um alarme começou a tocar. Meu coração parou nessa hora.
Um rugido foi ouvido, seguido de vários latidos.

-Não... - me virei devagar.

O cachorro vinha em minha direção dando passos curtos, aumentando de tamanho a cada passo. Seus olhos eram feitos de fogo, e a coleira. estava prestes a ceder.
Ele olhava para mim com uma raiva absoluta. Misake estava com os olhos arregalados. O cão estava prestes a me atacar quando Yuuya pulou na frente e o impediu.

-VÃO LOGO! - ele ordenou.

O cão o derrubou facilmente e ficou por cima dele, cara a cara. O capuz de Yuuya tinha abaixado. O lado direito de seu rosto era roxo e um chifre curvado para baixo saía desse lado. Seu olho direito não era humano, com toda a certeza. Não havia pupila, nem íris, só seu glóbulo ocular com uma cor vermelha escura. Seu cabelo era da cor preta e tapava seu olho esquerdo. Metade de sua boca era deformada com dentes enormes.

-Agora não preciso mais esconder mesmo... - ele falou com um sorriso no rosto.

O espírito que o circulava atacou o cão, o que possibilitou a escapada dele. 

-VOCÊ É UM DEMÔNIO?! - Gen ficou boquiaberto.

Misake o encarava com desprezo.

-Ele pode se virar, vamos! - Misake prosseguiu seu caminho.

Os outros o seguiram, mas eu e Melody ficamos para trás.
Uma foice com lâminas nos dois lados apareceu nas mãos dele.

-Vão logo. 

Eu me virei e segui o único caminho possível. Os outros estavam logo a frente e nós conseguiríamos alcançá-los facilmente. Eu continuei a os seguir. Mas ouvi um barulho estranho, um barulho que me fez parar. Eu prestei atenção. Não ouvi nada. 
Continuei meu caminho até alcançar os outros.
Chegamos no centro do castelo, uma área aberta cercada pelo edifício. Em seu centro, o enorme cubo preso por correntes flutuava vagarosamente.

-O quê é isso? - uma menina que vestia azul perguntou para Misake.

-Isto é o centro da destruição. Chegamos aqui exclusivamente para encontrar essa coisa. Peço que vocês... - Misake caiu no chão de bruços.

Todos se surpreenderam. A menina de azul, que segurava um cetro, se aproximou dele perguntando o que havia acontecido.
Ele não teve chances de conseguir falar. A causa veio direto até nós.
Usando uma roupa preta, e com seu cabelo preto como breu, Richard nos encarava segurando um leque diferente de seu anterior. Ele tinha espinhos na ponta e em seus lados. Seu olho que não estava coberto estava completamente escuro, sem cor.

-Richard... Foi você que fez isso?! - perguntei irritado.

-Quem mais seria? - ela estalou seu pescoço.

-O quê houve com você?! - Adrian exigiu saber. - Você não é assim!

-Agora eu sou assim, acostume-se. Porque eu não vou voltar. - ela abriu seu leque devagar e deu passos curtos em nossa direção.

-Merith, Ingo e Gen, levem Misake daqui até ele se recuperar. - Melody pediu. - Yousuke, proteja-os.

Merith, a menina com o cetro, Ingo e Gen a obedeceram sem questionar. Yousuke sacou sua espada e se posicionou a frente de Misake e dos outros.

-Eu não vou falhar. - foram as palavras dele.

-Você tem algum plano? - Annie perguntou.

-Vamos dar um jeito na Richard, fazer ela recobrar o juízo. Vocês tentam arrombar a entrada do centro da destruição. Ainda temos tempo antes de Aron voltar... Pelo menos eu espero. - seus olhos ficaram vermelhos, junto com a pontas de seu cabelo.

-Não esqueça de mim. - Troian respondeu.

As duas ninjas correram em direção do cubo, mas foram impedidas por Richard.

-Não é elas que você quer, não é mesmo? - Misake disse com dificuldade. - Eu sei exatamente... O quê você quer...

-É... Você tem razão... Como se essas duas insignificantes fossem fazer algo. - Richard riu.

Ela acertou as duas irmãs num golpe único e as duas foram jogadas para longe.
Richard tinha os olhos cravados em mim.

-Sabe... Eu já derrotei seres divinos antes... Mas você vai ser muito fácil. - ela zombou.

-Porque vocês não param de usar códigos?! Digam na minha cara o que isso significa! - respondi estressado.

Richard foi cercada por fogo. Fogo negro. 
Me transformei e parti para o ataque, mas segundos depois, caí no chão sem escamas. Sem fogo, sem garras, sem modo dragão.

-O quê houve...? - tentei me transformar novamente, mas minha transformação foi desfeita. - Q-que história é essa de voltar ao normal? Não falhem agora poderes, por favor! 

Eu sempre voltava ao normal segundos após a transformação. Eu continuei a tentar sem parar, mas chegou um ponto que não conseguia manter a transformação por míseros 2 segundos. 

-Você não consegue se transformar? O quê houve? - Melody parecia preocupada.

-Você está bem? - Troian perguntou.

Eu não sabia como reagir, diferente de outra pessoa. Richard havia aberto um grande sorriso malicioso em sua face. A cada passo que ela dava era possível sentir uma vibração sombria no ar, cada vez mais forte e mais densa. Ela ia em minha direção.
Eu não estava indefeso, mas me sentia muito mais fraco. Richard sumiu no ar. Neste momento, Polar apareceu carregando meu arco e Magna minha aljava.

-Recomendo que haja rápido. - Magna alertou. 

-Não podemos ferir Richard, é contra nossos princípios. - Polar explicou rápido.

Ambos desapareceram na minha frente. Entre as flechas que estavam na aljava, uma delas era a que Ingo havia feito. Eu escolhi outra flecha e fiquei atento ao meu redor. Melody e Troian estavam a fazer a mesma coisa. Melody tinha um círculo de fogo ao seu redor, e Troian estava parada com os olhos fechados, prestando atenção aos sons e movimentos ao seu redor. Um vulto se apareceu ao meu redor. Perdi uma flecha a toa.

-Se acalme. Foi por causa de situações como essa que te treinamos em mais de uma arte. - Melody tentou me acalmar.

Respirei fundo e me concentrei. Cada som, cada movimento, eu devia estar atento a isso. 

-Alguém não está mais tão confiante, não é? - a voz de Richard vinha de trás de mim.

Senti a presença dela a minha direita e a ataquei com uma das flechas, sem a necessidade do arco, porém nada aconteceu. Subitamente, ela apareceu do outro lado e cortou minhas costas com seu leque. 

-Selion! - Melody baixou um pouco sua guarda.

Neste momento, Richard surgiu atrás dela. Exatamente como eu queria. Ignorei a dor e atirei na sua direção. Richard agarrou minha flecha com a mão e a quebrou. Normalmente eu ficaria frustrado com isso, mas esta era uma ocasião diferente das demais. A flecha se explodiu na mão de Richard, o que a obrigou a recuar. Melody aproveitou o momento e a atacou com bolas de fogo, diretamente contra ela. 
Mas ela foi mais rápida e se defendeu com seu leque.

-Suas flechas diferenciadas vieram bem a calhar, Misake. - fiz um sinal positivo para ele.

-Foi tudo friamente calculado. - ele tossiu.

Merith estava com suas mãos e olhos brilhando, junto com os de Misake. Talvez o estivesse curando. 
Entre nós, uma esfera vermelho-sangue tremeluzente apareceu. Um selo estava no chão logo abaixo dela. Uma reta vermelha em minha direção surgiu no chão, e a esfera, que parecia pulsar, começou a me perseguir. Ela se multiplicou em duas e foi atrás de Melody e de Troian também. 
Misake atirou com sua arma em uma das esferas. Ela explodiu, soltando o mesmo fogo sombrio que cobria Richard, desintegrando o chão, sem ao menos tocá-lo.

-Certo... Temos problemas... - Gen engoliu em seco.

Eu comecei a recuar para trás, mas era como se eu fosse sugado por elas. Peguei uma flecha qualquer. Era a que Ingo havia invocado. Ela realmente parecia que não faria estrago algum.
Você é tão inútil... Não tem ideia do que fez...
A voz disse. Provavelmente era Richard tentando me amedrontar.
Eu merecia isto mais do que você...
Eu não conseguia me concentrar. Tentei me transformar novamente, mas não obtive resultado. Coloquei a flecha no arco com dificuldade, e a atirei na direção de onde tinha vindo a esfera original.
A flecha pegou fogo no caminho, e pareceu acertar alguma coisa em pleno ar. Um envolto de sombras, como se fosse um manto, caiu no chão e revelou Richard por baixo dele. As esferas se tornaram maiores e mais fortes.
Troian apareceu por trás de mim e me puxou para longe delas, me libertando, e após tomarmos distância, Melody atirou estacas de gelo contra as esferas, o quê as fez explodirem. O impacto nos empurrou para trás.
Richard apareceu com a flecha presa em seu braço. Ela se aproximou de nós com uma grande esfera de fogo negro ao seu redor. O chão se levantou, criando uma parede, mas o fogo o desintegrou sem deixar sobrar nada.
Troian pareceu ficar tensa, e presas apareceram em sua boca. 
Não iríamos conseguir pará-la desse jeito. Se nós não saíssemos dali, temo que um futuro nada agradável nos esperava. Richard cortou o ar em nossa direção, e fomos jogados para trás.

-Eu esperava mais de vocês... Não estão com medo de me machucar, não é? 

-Não podemos te ferir. - Melody a respondeu. - Mas nunca dissemos nada sobre te nocautear.

Misake surgiu por trás dela e a segurou pelos braços, impedindo de se mexer. Havia um símbolo em sua testa que não parava de cintilar.

-Gostou do truque? - Misake riu, superior. - Alguém pode fazer as honras?

O fogo que cobria Richard começou a sumir, até se apagar por completo. Aproveitando o momento, Troian se aproximou e apertou um lugar de seu pescoço, fazendo com que ela desmaiasse.

-Menos uma. - ela comemorou.

-Agora só faltam 8. - várias vozes a responderam.

Formando um círculo ao nosso redor, 9 pessoas nos encurralavam. Richard, que deveria estar inconsciente, começou a rir e então desapareceu. 

-A brincadeira acabou. - Richard estava entre as 9 pessoas. - O tempo de vocês está esgotando, e nosso Aron irá ressurgir. 

-Lembram-se de mim? Pois eu me lembro de vocês! Doces, doces memórias azedas! - Gar andava para trás em círculos.

-IRMÃO! - Gen o chamou.

-A... O zero à esquerda veio... - Gar levantou seu cabelo para enxergá-lo.

Gar não tinha olhos. Seu rosto era liso do nariz para cima, sem nem sobrancelhas. Gar acenou para seu irmão.

-Eu vou te matar. - ele sorriu.

Gen pareceu ficar amedrontado. Eu identifiquei as outras pessoas. Sylfer, Snape, Grandark e Lief. Ao lado deles, o menino que havia nos atacado na clareira nos encarava com uma cara tristonha. 
Havia mais uma pessoa, mas era impossível ver quem era. Seu corpo era formado inteiramente por um vulto escuro que tremulava no ar.

-Você está sem seus poderes, não é, Selion? Que peninha... - Gar fez cara de choro -De nada adiantaria mesmo... 

-Você não acha que isso não é uma luta justa? - Misake pegou uma de suas armas, sei lá de onde.

-Vocês vão achar um jeito de trapacear... - Lief revirou os olhos.

Enquanto eles matavam tempo com esse papo pré-batalha, Ingo se aproximou de mim e me entregou uma arma que parecia ser uma pistola, porém atirava flechas.

-Isto é uma besta, espero que ajude. - ele instruiu. 

Ele também me entregou uma flecha com a ponta dourada. 

-Mire na Richard. Só o que tenho para dizer. - ele sussurrou.

Ele girou as mãos e uma alabarda surgiu. Era como uma foice e um machado em uma só arma, tinha uma longa haste e uma grande lâmina no topo.

-Vamos dar uma chance para vocês. - Grandark anunciou. 

-Se eliminássemos tão rápido não teria graaaaaaçaaaaa! - Gar cantarolou.

Richard levantou as mãos e Annie e Stephie apareceram no ar e foram jogadas no chão com força.

-E-e-estávamos quase... - Stephie se desculpou.

Merith correu para ajudá-las. Ela estava segurando um frasco verde.

-Sobrevivam a mim e a Snape, e depois lidarão com o resto. - Richard deu um passo a frente.

Snape sibilou para nós. Os outros desapareceram, nos deixando sozinhos com eles.

-Isso é uma escada... - Misake observou. - Teremos que passar por cada degrau para chegar ao topo. Mas francamente, não havia ninguém melhor que o homem cobra ali? 

Snape permaneceu sério e sibilou novamente.
Ouvi latidos, vários deles. Yuuya apareceu segurando o cão infernal pela orelha.
A metade normal de seu corpo havia desaparecido quase que por completo. Aos poucos, ele estava virando um demônio completo. Seria isso uma coisa boa?
Eu fechei meu punho e agarrei a besta com força. 
"Eu vou fazer o máximo para finalizar tudo isso!" pensei confiante.
Ou então acabará se destruindo...