quinta-feira, 7 de agosto de 2014

As Pedras de Elementra. Parte 2. Capítulo 12 - Parte 2 (Melody)




12. Miragens de um pesadelo

Parte 2


Tentei pensar em algo. Não podíamos ficar parados esperando sermos atacados! De repente, Selion começou a correr em direção das sombras.

-Selion, o quê vai fazer? - perguntei.

-Tirar a prova. - ele respondeu.

Eu teleportei para sua frente, impedindo ele de continuar. Por um segundo senti uma força estranha ao meu redor. Devem ter sido as sombras.

 -Selion, isso é muito arriscado! Você viu o quê aconteceu da última vez que você tentou as coisas só pioraram. Vamos dar um jeito de sair daqui, mas confrontá-los assim não vai ajudar em nada. - expliquei.

Ele parou para pensar um pouco e recuou. Agora tínhamos que dar um jeito de sair desse lugar. Talvez se...

-Melody...? Está tudo bem? - Selion perguntou de repente.

Ele parecia preocupado.

-Estou sim... O quê houve? - estranhei.

Ele estava com uma expressão séria e preocupada.

-M-Melody? - ele chamou.

Algo estava errado. Mas o quê? Selion estava muito estranho... Seria culpa das sombras?

-O que deu em você? Melody?! - ele me agarrou.

-S-Selion? O quê esta fazendo? 

Ele olhou para trás de mim, e pareceu entrar em pânico. 

-MELODY?! - ele me virou e viu minhas costas.

"O quê está acontecendo com ele?"
E então, ele me abraçou enquanto repetia "Não" diversas vezes.

-Selion...? - eu o chamei.

Ele gritou meu nome com lágrimas caindo de seus olhos. Ele me abraçou mais forte, como se algo horrível tivesse acontecido comigo. Mais lágrimas escorriam de seus olhos, eu não aguentava vê-lo assim.
Seu corpo de repente começou a pegar fogo, mas ele não propagava calor, nem me machucava. Seu corpo se transformou lentamente. Suas escamas prateadas viraram vermelho-sangue, e suas garras cresceram. Antes que eu pudesse notar, as sombras nos cercaram e nos atacaram com um fogo sombrio. O fogo de Selion se espalhou e nos protegeu, como uma barreira.
Ele me colocou no chão com cuidado e se levantou. 

-VOCÊ NÃO MERECE VIVER! - ele gritou com as sombras.

Suas chamas se espalharam por todo o lugar, acertando até as árvores.
Eu me levantei e tentei pará-lo, mas minha mão o atravessou.

-O quê? - olhei para minhas duas mãos. 

"Eu... Não posso tocá-lo? Ele não pode ver o que estou fazendo...?" pensei.
Selion correu em direção das sombras e as atacou, e como esperávamos, foi inútil.
Senti a presença de uma terceira pessoa ao redor. Prestei atenção. Havia alguém atrás das sombras, eu não conseguia identificar o que ou quem era. A criatura se tornou mais nítida. Ele atravessava as sombras, se escondendo atrás dela, em direção de Selion. Tentei chamá-lo para avisar sobre o ser, mas ele não me ouvia.
As sombras rapidamente o cercaram, entre elas o ser ocupava um espaço da barreira. Será que Selion podia vê-lo?
Corri na direção do ser e o ataquei com estacas de gelo. Uma barreira apareceu e impediu o ataque. Mas eu não ia desistir de jeito nenhum. Conjurei uma bola de fogo, mas alguém me puxou, me interrompendo. 
Me defendi prendendo o ser em uma barreira de fogo. Me afastei e depois vi quem era. Era Lief.

-A quanto tempo, Melody. - ele ergueu a espada, e então absorveu todo o fogo através dela. 

-Lief? O quê faz aqui? - exigi saber.

-Eu só vim ver o resultado. Mas ao ver você indefesa desse jeito me senti mal, e vim lhe fazer uma proposta. 

-Você se uniu a Grand Destruction, eu não quero nada com você! - me afastei.

Ele olhou através de mim. Um sorriso se formou.

-Poderia ouvir o que eu tenho a dizer antes de me atacar? - ele pediu.

Olhei para trás depressa. Selion havia sido atingido por uma flecha. Ele rugiu de dor. Com um som alto e estridente, que ecoou por todo o lugar. Nem parecia que era ele. 

-Seu tempo está acabando. - Lief me apressou.

Eu o ignorei. Algo estava acontecendo com Selion. Seu corpo se envolveu em uma enorme esfera flamejante, ascendendo ao topo da clareira.

-Você não me deixa opção. - Lief resmungou.

Ele se aproximou rapidamente, provavelmente com a intenção de atacar. Eu desviei fácil e o joguei no chão acertando com uma esfera de gelo em sua barriga.

-Achou mesmo que foi uma boa ideia? Sinceramente Lief... 

Ele abriu um grande sorriso. Seus olhos ficaram dourados e então ele desapareceu no ar. Criei estacas de gelo ao meu redor, formando um escudo de espinhos.

-Onde você está? - perguntei séria. - Não é uma boa hora para seus joguinhos!

Eu vi dois pontos dourados flutuando. Atirei uma das estacas contra eles, e eles se apagaram quando a estaca se aproximou. Os pontos dourados reapareceram em outra direção, dessa vez mais perto. Ataquei novamente, conjurando bolas de fogo junto dessa vez. Eles desapareceram de novo. No céu, o fogo de Selion só aumentava. Todas as árvores começaram a queimar, muito mais do que antes. Um monte de fumaça começou a se espalhar. Estava começando a ficar difícil respirar.
Usei vento para empurrar a fumaça para longe de mim. Por enquanto ela não me afetaria. Mas eu tinha que parar Selion.
De repente, os pontos dourados apareceram a poucos centímetros a minha frente. Rapidamente, ataquei-os com as estacas. Mas, como anteriormente, foi inútil.
Ao longe, alguém estava me observando. Era aquele vulto que estava por trás da sombra. Agora eu podia vê-lo quase nitidamente. Ele tinha cabelo azul-escuro com mechas brancas, e olhos escuros como a noite. Ele tinha uma cara séria, como se não tivesse emoções. Ele usava uma camisa preta, e uma bermuda branca, por baixo de um manto negro que o ajudava a se camuflar no meio das sombras, mas que agora só fazia parecer que estava usando um vestido. Ele me encarava ao longe, segurando alguma coisa prateada. De repente, ele mexeu a cabeça para o lado direito. Logo após isso, senti alguém atrás de mim. Me abaixei e me levantei logo em seguida, dando uma cabeçada na pessoa.
Ele grunhiu e me prendeu com seus braços. Era Lief, mas com algo diferente.
Seus olhos além de estarem dourados, estavam com marcas estranhas a seu redor.
Eu já tinha visto aquilo em algum lugar, mas não era hora para me preocupar com isso. Tentei me teleportar para outro lugar, mas eu não consegui. Era como se eu não pudesse usar minha magia.
Eu vi as mãos de Lief. Elas emitiam um brilho azul estranho.

-Me solte. AGORA. - ordenei, tentando me libertar.

Ele estava muito mais forte, isso não era normal. Antes, eu poderia vencê-lo facilmente... Algo estava diferente nele, e aquelas marcas estavam envolvidas.

-O quê foi? - ele parecia olhar por dentro de meus olhos. - Não consegue se soltar? Eu já disse, venha comigo Melody.

-O quê foi? Não sabe perder? Eu já disse que não. 

Minha barreira de ar que mandava a fumaça para longe foi, repentinamente, dissipada. A fumaça se acumulou depressa ao nosso redor. 

-Sê você não colaborar, eu terei que usar a força para isso. - Lief ameaçou. - Eu gosto de você, Melody. É uma pena que você esteja do lado errado.

Ele tossiu algumas vezes. Aproveitei que estava fraco para me soltar e tomar um pouco de distância. Eu me sentia um pouco fraca.

-Eu não sou o mesmo perdedor de antes. A Destruição me mostrou um caminho melhor para seguir. E agora você não pode contra mim. Se renda, agora. - ele se aproximou devagar com passos pesados.

-Será mesmo? - ergui a terra por baixo dele, e o derrubei no chão.

Ele se levantou e abriu sua espada, e então correu em minha direção, cortando o ar em seu caminho. Eu me desviei, mas ele era rápido de mais, e acabou cortando o meu braço. Eu gritei de dor.

-Estou avisando. Eu não quero ter que acabar com você. - Lief reclamou.

Eu ia respondê-lo, até que olhei para cima e vi. A esfera flamejante que cobria Selion havia se tornado enorme. E ela continuava a crescer. Logo estaria perto do chão, e depois, nos queimaria vivos. As sombras ao redor pulavam em direção dela, tentando alcançar Selion, mas era inútil.
Eu tinha que fazer alguma coisa! Mas eu já tinha problemas de mais.

-Espantada? Porque acha que apareci aqui? Estou te dando uma chance de se unir a mim e se salvar. - Lief puxou meu braço machucado com força.

Eu gritei de dor mais uma vez. A sensação era de que meu braço estava sendo rasgado. Talvez seja porque ele realmente estava. Lágrimas de dor escorriam do meu rosto. 

-Seu desgraçado... - me levantei com raiva.

Duas sombras apareceram de repente e me prenderam. Cada uma segurava uma flecha, e ambas apontavam para minha barriga.
As sombras ficaram com olhos dourados, como Lief, e o mesmo brilho azul saía das mãos que me seguravam.
Elas afastaram as flechas devagar, e ameaçaram me atacar. 

-Vai vir comigo, ou não? - Lief perguntou pela última vez.

-Nunca nessa vida.

-Então nos vemos na sua próxima reencarnação. - ele se virou para trás. - Podem executá-la.

-NÃO! - eu gritei várias vezes, tentando me soltar.

A fumaça começou a me impedir de respirar, e eu comecei a tossir. Eu não conseguia usar magia alguma, e as sombras eram mais fortes que eu. 
Eu precisava de ajuda... Urgentemente.

-SELION! - chamei seu nome bem alto. 

Por um instante, a bola de fogo pareceu parar de aumentar. Mas logo ela voltou a incendiar mais e mais. Cada vez mais perto. E então, um som ensurdecedor invadiu o local. O lugar se iluminou por completo pelo brilho laranja do fogo, e as sombras desapareceram devido a luz forte, a inimiga natural das sombras.
Eu não sabia como reagir. Lief parecia muito bravo.

-Isso não é possível... - ele falou consigo mesmo.

Eu ouvi um rugido bem alto ressoar pelo lugar. O quê estava acontecendo?
Eu cobri meu corpo com uma proteção feita de fogo. Eu podia sentir que aquilo não ia acabar bem. 
Lief ergueu sua espada e apontou em minha direção.

-Me desculpe... Você está me forçando a fazer isso... - ele começou a correr, com a espada apontada para mim.

A espada absorveu todo o fogo ao meu redor. Eu ergui a terra ao redor e a usei para acertá-lo, mas foi em vão. Ele estava a poucos metros de mim quando a enorme bola de fogo explodiu. Ela encolheu, e se reuniu ao redor de Selion. Agora era possível vê-lo voando no centro da clareira. Eu ouviu outro rugido estridente. E então, o fogo que estava reunido ao redor de Selion se expandiu novamente, e explodiu para todos os lados. Exceto na minha direção e na de Lief. E, durante a explosão, algo caiu do centro da esfera de fogo, numa velocidade incrível, e parou exatamente na minha frente, pouco antes de Lief conseguir me acertar. 

-S-Selion? - eu temia ele ainda não conseguir me ver.

-Você brincou com fogo, Lief. Agora é hora de se queimar. - Selion disse sério.

-Até parece que eu teria medo de alguém como você. - Lief riu.

Lief atacou Selion com sua espada flamejante, enterrando-a em seu braço.
Selion nem se mexeu. Ele estava diferente. Seu modo dragão não estava como antes. Agora suas escamas estavam mais vermelhas do que nunca. Parecia que lava escorria em seu corpo. Suas garras estavam enormes.

-Você não deve brincar com dragões. - ele ameaçou.

Sua voz estava diferente. Estava mais grave que o normal, mesmo para um dragão.
Lief tentou retirar a espada de Selion, mas ela nem se mexeu.

-Você não está sentindo dor? - Lief começou a ficar preocupado. - É impossível você não estar!

Selion não respondeu. Lief tentava retirar sua espada do braço dele. Ela nem se mexia. Selion pegou a mão de Lief, e a apertou. Uma fumaça começou a sair da pele de Lief.

-AAARG, SEU DESGRAÇADO! - Lief gritou de dor. 

Ele finalmente conseguiu pegar sua espada, e depois se afastou de Selion. A mão de Lief estava vermelha.

-Selion? O quê houve com você? - eu perguntei.

Um som de tiro foi ouvido. Não muito longe de nós, o ser de antes apontava um revólver em nossa direção. Olhei na direção de Selion. O tiro havia acertado seu braço, no mesmo lugar que a espada de Lief. 
Ele não emitiu nenhum som, nem esboçou nenhuma reação. Simplesmente colocou a mão no braço, e viu seu sangue escorrendo. Então, mais fogo saiu dele, e ele voou na disseram do ser com o revólver. Ele tentou acertá-lo com as garras, mas ele desapareceu no ar, como uma assombração, e apareceu atrás dele, com o revólver encostado em suas costas.

-Desista. - sua voz soou seca.

Selion explodiu em fogo, o que afastou o inimigo. Ele estava fora de controle, eu tinha que pará-lo!
Lief agarrou meu braço.

-É a sua última chance. 

Um portal estranho se abriu atrás dele. Ele realmente queria que eu fosse com ele.

-Eu não vou deixar ele sozinho aqui. - eu me soltei.

-Me perdoe... Mas eu preciso que vá comigo. - ele se irritou.

Ele me empurrou na direção do portal.
Eu me soltei facilmente, mas ele não desistiu. Ele sacou sua espada.

-Se você me obrigar a fazer isso, eu farei. - ele me ameaçou.

Ele erguei a espada e me atacou. Eu me defendi.

-Vai precisar de mais do que isso para... - senti algo me agarrar e então me prender.

Duas sombras. 
Selion começou a me encarar. Ele podia me ver? 
O brilho azul das sombras voltou. E dessa vez estava me machucando. Eu me senti muito fraca, e caí no chão. No momento que eles me deixaram cair, usei o restante de força que tinha para me teleportar para longe. Mas não consegui chegar a uma distância segura.
Outro barulho de tiro. Me virei na direção do ser com a arma. Eu não conseguia vê-lo. Selion estava na minha frente, com um tiro no meio do corpo.
Ele caiu no chão. 

-Selion! Você está bem?! - me aproximei para ajudá-lo.

Quase me queimei ao tentar tocar nele. 
Ele se levantou de repente, sem mexer o braço que foi atingido pela primeira bala, e cravou suas garras no chão. Lava saia de seus olhos, e ele pareceu ficar maior.
Um enorme buraco se abriu abaixo de nós, com um brilho laranja intenso.
Nós dois caímos. Ele não parecia estar preocupado com isso. Suas escamas desapareceram, e ele foi encoberto por fumaça por causa de seu corpo pegando fogo. Ele desmaiou.

-Selion? ACORDA! - tentei acordá-lo.

Olhei para cima. O ser de antes nos encarava com indiferença, enquanto o buraco no chão ia se fechando. 

-Reap. - ele disse. 

"Reap?"

-Walpurgisnatch. - ele completou.

O buraco se fechou, e eu e Selion pousamos em um local com grama.
Tudo havia acabado. Sem fogo. Sem sombras. Sem Lief.

-Você está bem? Acorde, por favor! - eu tentei acordá-lo.

Ele permanecia imóvel. 
Analisei seu braço. A bala estava presa em seu braço, mas não havia nenhuma ferida aberta, ou algo preocupante.

-O quê... Foi isso? - eu o via inconsciente.

Observei ao redor. Estávamos em um campo aberto, que parecia familiar.
Ele começou a se mexer. Lágrimas escorriam de seus olhos.

-Você está... Chorando...? 

Ele murmurava algo para si mesmo. Eu não conseguia ouvir direito.

-Eu... Vi você morrer... Na minha frente... - consegui ouvir.

Ele disse que me tinha me visto morrer... Então ele ficou invocado daquele jeito por minha causa?
Eu senti estar sendo observada. Olhei ao redor, mas senti uma tontura, e alguma coisa me forçou a cair no chão. Meus olhos estavam querendo se fechar.

-O-o quê...? 


...

Quando abri meus olhos, estava deitada em um lugar bem iluminado. Eu sentia uma paz e harmonia ao meu redor. Não era possível explicar. Selion estava deitado ao meu lado. Ele parecia melhor que antes. Já havia voltado totalmente ao normal. Exceto por uma marca estranha em sua testa. Eu nunca vi algo como aquilo antes. Parecia um símbolo.
Tentei me levantar, mas ele segurou minha mão.
Ele ainda estava dormindo.

-Me perdoe... - ele sussurrou. 

-Te perdoar? - perguntei.

Mas falar era inútil. Ele ainda estava a dormir. 
Ele me abraçou forte.

-Eu... Não consegui te manter a salvo. 

Eu não sabia como reagir a aquilo. 

-Eu te amo, mas não consegui te proteger... - ele murmurou.

"E-ele disse que me ama?"
Ouvi passos e folhas sendo pisadas. Fiquei alerta.

-Não... Ainda não quero acordar... - Selion murmurou.

-P-Pare com isso! - pedi.

Uma pequena criaturinha apareceu nos observando. Parecia um pouco com o Polar e a Magna, mas vestia roupas de folhas e tinha uma espada de graveto atrás dele. Seus olhos brilhavam.

-Oi. - ele sorriu. - Desculpe interromper o momento meigo de vocês.

-O-o q-quê? - me levantei.

Selion abriu os olhos.

-O quê está acontecendo...? - ele perguntou meio zonzo. - Melody...? Porque você está como um tomate? 

Eu escondi minha cara, envergonhada.

-Espera um pouco... MELODY? - Selion despertou. - VOCÊ ESTÁ VIVA?

Ele me abraçou forte. 

-EU PENSEI QUE TIVESSE MORRIDO! Por favor, nunca mais morra de novo! 

A criaturinha de folha se aproximou de mim.

-Ainda está sob o efeito do calmante. Ele vai se expressar bastante. - ele explicou.

-Como assim? Calmante? Quem é você? Onde nós... - comecei a perguntar.

-Vou ajudar vocês assim que terminarem. - ele explicou.

Ele era do tamanho da minha mão. Ele fez sinal de silêncio, e depois se afastou dizendo que iria nos deixar a sós para "nos conhecermos de verdade". 
Tantas perguntas... Nenhuma resposta.

-Selion... O quê aconteceu com você? - perguntei.

-Você... Morreu... Aquela hora, uma sombra minha matou você... Eu perdi o controle. Perder você foi... Horrível... - ele explicou.

Ele olhava para mim como se ainda não acreditasse que eu fosse real.

-O meu fogo ia te machucar, não ia? - ele perguntou.

-Sim, mas você conseguiu parar antes que fosse tarde demais. - expliquei.

-Eu quase perdi você... 

Ele ainda me parecia meio zonzo. Seria por culpa do tal calmante que o folhinha disse?

-Me desculpe por fracassar com você. - ele se desculpou.

Ele estava culpado. 

-Foi só uma ilusão, você não tem culpa. - tentei ajudá-lo.

Ele olhou no fundo dos meus olhos. 

-Quando eu te perdi, eu perdi o controle. Meu lado dragão explodiu, porque eu fiquei emocionalmente instável. E quando isso aconteceu, eu descobri uma coisa. - ele disse.

Perguntei o que era.

-Eu descobri... que eu amo você. - ele respondeu com dificuldade.

Nós dois ficamos quietos.

-Selion... Eu... - tentei falar.

Ele se aproximou de mim devagar e me beijou.
Um flash foi emitido.

-Momento registrado! - Magna segurava uma câmera.

-M-MAGNA?! - eu e Selion nos assustamos.

-Oie. Vim buscar vocês! - ela se aproximou flutuando. - Depois eu explico como cheguei aqui. Mas olha só vocês dois aí... Não podem ficar sozinhos. - Magna riu.

-N-não é o que... - Selion desmaiou.

-Antes que se preocupe, isso foi a última fase do efeito do calmante que os folhinhas deram pra ele. Quando ele acordar de novo, vai estar de volta ao normal. - Magna explicou. - Mas e então... Vocês dois, hein...?

-CALADA! 

Magna riu. Ou pelo menos fez um som de risada. Era difícil saber se estava rindo, ela não tinha boca. 
Eu vi Selion dormindo e me lembrei do estado em que ele ficou na clareira de antes. Aquilo não era normal para um dragão comum. Com certeza não.


...

-Obrigado pela ajuda. - Magna agradeceu a pequena criatura.

-Ora essa. Sua raça é prima da nossa. Seus amigos são nossos inimigos! Opa... Não é bem isso... - ele se confundiu.

O nome dele era Grim. Ele disse que nos atacou, pensando que fossemos agressores ao seu santuário de harmonia. Isso explicava a tontura que senti.
A raça dele, os Leafos, são como seres de folhas. Obviamente, parentes do seres magnéticos, Polar e Magna. 
Ele bem que podia ter perguntado alguma coisa antes de ter nos atacado. Mas não vou reclamar, até que não foi tão ruim.

-Vamos, Melody. - Selion chamou sorrindo.

Ele não se lembrava de nada que fez enquanto estava sob o efeito do calmante. Eu não sabia como contar para ele.
Eu o segui, e fiquei a frente do portal que os Leafos criaram.

-Desculpem-nos pelo mal entendido. Boa assaltagem. - Grim se despediu.

-Viagem. - Magna o corrigiu.

-Isso, claro, tanto faz. - ele deu de ombros enquanto balançava seu galho, nos dizendo tchau.

Magna atravessou o portal e depois voltou, nos avisando que era o lugar certo. 
Dei um passo a frente e parei.

-O quê houve? - Selion perguntou.

-Nada... Deixa pra lá. - respondi.

Poucos segundos depois, estávamos de volta a nossa casa. Kathryn veio correndo até nós, muito preocupada.

-POR ONDE ESTIVERAM?! VOCÊS SABIAM QUE PODIAM TER MORRIDO?! - Kathryn brigou, preocupada.

-Por onde andaram?! Ficamos preocupados! Não tínhamos rastro de vocês! - Sakura exigiu saber.

-É uma loooooonga história... - Selion explicou. - Mas... Eu não lembro de boa parte dela...

-Eu lembro. E acho que... eu não vou esquecer... 



quinta-feira, 26 de junho de 2014

As Pedras de Elementra. Parte 2. Capítulo 12 - Parte 1 (Selion)


12. Miragens de um pesadelo.

Parte 1.


Abri meus olhos devagar. Parecia que havíamos desmaiado ou algo assim. Eu sentia uma dor de cabeça terrível.

-Melody...? – chamei por ela, um pouco zonzo.

Tudo ao redor parecia tremer e minha visão estava embaçada, mas eu consegui avistar Melody. Ela estava um pouco perto de mim, deitada no chão ainda inconsciente. Tentei me levantar, mas fui detido por uma força estranha. Rastejei até ela e tentei acordá-la.
Ela acordou depressa e piscou algumas vezes.

-S-Selion? Onde estamos? – ela passou a mão na cabeça.

A gravidade daquele lugar parecia mais forte, nos empurrando para baixo. Tudo tremia e girava ao redor. Melody parecia estar afetada por isso também. Tentei me levantar, mas a gravidade era mais forte do que eu. Me transformei em dragão, e usei a força extra obtida para me levantar. Consegui com muito esforço.
O estranho foi que ao conseguir me levantar a tontura e a dor de cabeça passaram. Melody parecia estar sofrendo mais do que eu estava, e tentava se levantar mas sem obter sucesso. Peguei sua mão e a ajudei.

-Que lugar é esse? Onde nós estamos? – Melody perguntou, enquanto esfregava seus olhos.

-Eu não sei. – observei ao meu redor.

Estávamos em uma espécie de clareira, cercados de árvore muito altas (muito altas mesmo!) e com uma enorme lua vermelha sob nossas cabeças. Sua cor era muito viva, parecia sangue, e a lua parecia pulsar no céu noturno negro. Não havia espaço entre as árvores, e elas se estendiam em direção a lua, nos prendendo em um grande círculo.

-Não temos tempo pra perder aqui! Vamos tentar voar lá para cima. – sugeri.

-Espere... O quê é aquilo? – Melody apontou para um ponto negro se movendo no ar.

Desviei minha atenção para o pequeno ponto preto se aproximando. Ele certamente não era amigável.

-Melody... Melhor se afastar dele... – alertei.

-Não se preocupe... Eu já percebi isso...

Nós dois andávamos de costas. O ponto nos seguia e se tornava cada vez maior conforme nós fugíamos dele. Estava claro que não era algo bom. Eu continuava me afastando, mas chegou um ponto que eu não podia mais. Bati minhas costas nas árvores e senti uma dor repentina. Me virei para elas e notei que elas estavam cheias de espinhos. Passei a mão nas minhas costas. Elas estavam sangrando.

-Melody! Não toque nas árvores! – escondi a dor que eu sentia para alertá-la.

Ela parou bruscamente antes de se machucar como eu.

-Espinhos... Essas árvores tinham isso antes? Espera... Você se feriu? – ela quis saber.

-Não, me virei a tempo. – menti com um sorriso falso, escondendo minha dor.

“Não é hora para pensar em ferimentos! Precisamos sair daqui!” pensei comigo mesmo.
Ouvi uma risada curta e abafada. Não fui eu, nem Melody. Será que vinha do ponto negro nos seguindo?
Notei que ele estava do nosso tamanho agora, e estava cada vez mais próximo. As árvores tapavam nossas cabeças, não havia como sair sem se machucar. Só havia uma opção.
Me aproximei do círculo enorme.

-Selion? O quê pretende fazer? – Melody perguntou.

-Uma grande besteira. – caminhei até o ponto.

Estiquei minha mão até ele e o toquei. Uma luz negra cobriu o lugar, e desviou a luz vermelha da lua. Minha voz e a de Melody foram abafadas e nossos olhos foram obrigados a se fechar.
A gravidade aumentou novamente, mas não fui jogado no chão.
Isso durou por alguns segundos, mas logo isso passou.

-O quê foi isso...? – perguntei quando meus olhos se abriram.

Melody olhava espantada para algo atrás de mim. Já presumi que não tinha nenhum sorvete ou pudim lá. Me virei depressa, e notei um monte de sombras. Sombras com o meu tamanho e formato.

-Como...? – tentei entender o que acontecia ali.

Milhares de sombras. Algumas com mãos e braços de dragão, outras com arcos apontados para nós.

-Isso não pode estar acontecendo... – Melody disse surpresa.

Os Selion’s em modo dragão rugiram ao mesmo tempo, numa frequência que feriu meus ouvidos. Fui forçado a tapar meus ouvidos e recuar para trás. Mas logo voltei e encarei todos eles.

-São só sombras... Não podem fazer como o original! – falei comigo mesmo e joguei bolas de fogo contra alguns deles.

O fogo simplesmente passou por eles sem atingi-los. Algumas sombras recuaram um pouco por causa disso, mas não as afetou muito.

-O fogo virou inútil contra vocês também?! – reclamei.

-Talvez sejam só ilusões... Que não possam nos ferir... – Melody se aproximou de mim.

-Tudo que eu sei, é que NÓS não podemos feri-los!

Melody conjurou uma espécie de lanças de gelo no ar e as jogo em direção das sombras. Quando elas os atingiram, elas explodiram iluminando o lugar. Todas as sombras continuaram lá, e para minha surpresa, mais apareceram.

-Essa não...

Todas as sombras começaram a se mover subitamente. Os com arcos e flechas miraram para o céu, prontos para atacar, e os metade dragão começaram a caminhar devagar, com um fogo negro cobrindo seu corpo.

“Existe a possibilidade de eles não nos atingirem... Mas eu acho que não é uma boa ideia contar com isso.” Pensei.
“O quê eu posso fazer?”
Estávamos em um lugar desconhecido, sem contato com ninguém. Não podíamos voar, senão seríamos atingidos pelas flechas, ou talvez não... Mas era perigoso arriscar. E se ficássemos corríamos o risco de ser atingidos pelos Selion’s dragões. Só havia uma coisa a ser feita. Corri até a direção da sombra mais próxima.

-Selion?! O quê você vai fazer?! – Melody perguntou.

-Tirar a prova. – respondi seguindo em frente.

Ela apareceu na minha frente me impedindo de continuar. Por um segundo pensei ter visto seu corpo coberto pelas sombras, mas o lugar estava escuro, meus olhos provavelmente estavam me enganando.

-Selion, isso é muito arriscado! Você viu o quê aconteceu da última vez que você tentou as coisas só pioraram. Eles agem devagar, temos um tempo para pensar... – ela explicou.

Ela poderia ter razão. Mas esse porém estava me matando! Talvez sejam só hologramas! Talvez nós estejamos tomando cuidado pra nada!
De repente, a expressão de Melody mudou.

-Melody...? Está tudo bem? – perguntei.

Ela pareceu fraca por um instante, e seus olhos perderam o foco.

-M-melody?

Ela começou a cair, mas eu a segurei antes que caísse.

-O quê deu em você? Melody? – chamei-a.

-S-Selion... – ela respondeu.

Olhei para trás dela. Uma de minhas sombras estava atrás dela, com uma expressão maligna no rosto.
Eu liguei os pontos.

-MELODY?! – eu a virei e vi suas costas.

Uma flecha atravessava suas costas, mas estava invisível do outro lado. Cheguei perto dela. Ela não estava respirando.

-Não... Não... Não... – eu a abracei, em choque.

Isso não podia estar acontecendo. Eu não sabia o que fazer, nem o que pensar. Eu entrei em colapso.

-MELODY! – eu gritei seu nome com lágrimas escorrendo pelos meus olhos.

Algo mudou dentro de mim. Uma raiva que eu nunca havia sentido antes floresceu. Quando notei, meu corpo estava pegando fogo. Minhas garras estavam maiores do que nunca e minhas escamas estavam vermelho-sangue. Eu sentia um misto de dor e raiva.
Mais lágrimas escorreram pelo meu rosto. Olhei para cima e notei que estava cercado pelas sombras. Elas não hesitaram. E nem eu.
Nos atacaram com fogo. Um fogo negro que escureceu toda a minha visão. Meu corpo se encheu de chamas, e cobriu a mim e a Melody, nos protegendo.
“Eles a mataram... Eles a tiraram de mim...”
Eu a coloquei no chão com cuidado e me levantei. Eu não iria perdoar, seja lá quem ou o quê criou aquelas sombras.

-VOCÊ NÃO MERECE VIVER! – meu fogo se espalhou por toda a área.

As árvores começaram a pegar fogo, e a sombra da lua sangrenta tremulava sobre mim. Eu fui em direção das sombras, sem poder controlar meus movimentos, e tentei acertá-las. Minhas mãos atravessaram as sombras e eu caí no chão. Me levantei rapidamente a tempo de fugir de um monte de flechas sombrias que caíam do céu. Voltei a me concentrar no fogo, jogando bolas de fogo contra as sombras. Quando o fogo os atingia seus corpos de sombras tremiam, e pareciam se tornar mais fracos por um instante, mas logo depois voltavam ao normal. Tudo aquilo era inútil? Eu não tenho certeza. Eu não conseguia raciocinar direito.
Eu vi Melody deitada no chão, sem vida. Ver aquilo partia meu coração e ao mesmo tempo me fazia perder mais o controle.
Eu sabia o quê estava acontecendo... Eu só temia admitir.
As sombras me encurralaram. Corri na direção delas, pois sabia que eu as atravessaria, e então meus ataques continuariam. Mas não foi assim que aconteceu. Bati com tudo nas sombras. Elas haviam se tornado sólidas. Levantei voo para escapar, mas várias flechas apareceram, e quase me acertaram. Eu voltei ao solo. Eu estava indefeso? Não.
Uma bola de fogo se formou ao redor de mim, e explodiu logo em seguida. Isso deteve as sombras por alguns instantes. O suficiente para eu escapar e contra-atacar.
Eu queria vingá-la. Eu queria matar todas essas sombras, e a pessoa ou coisa que está atrás delas. Eu estava fazendo o certo! Não é?
Uma flecha atingiu minha perna. Rugi de dor. Eu cheguei ao meu limite. Meu corpo começou a ferver, e as flechas que o atravessavam começaram a desintegrar. Uma bola de fogo começou a se formar em volta de mim. Mas ela não parava de crescer, e eu não controlava minhas ações. Logo, toda a clareira estaria coberta de fogo. Isso exterminaria as sombras? Isso era o que eu queria... Certo? Não... Se eu fizesse isso, Melody seria levada embora para sempre... Talvez ainda tenha uma esperança para ela!
A esfera incandescente ao meu redor começou a ficar mais próxima do chão. As sombras atacavam, mas eu não era atingido, e o fogo não diminuía. Eu precisava retomar o controle, ou então eu a perderia para sempre.

-Selion... Pare com isso... – falei comigo mesmo.

Não. Eu não conseguia me controlar! Eu precisava dar um jeito. Mas como? COMO?!

De repente, ouvi um som diferente. Era um grito? E de quem seria essa voz...? Melody...?